25 de maio de 2008
Um verso inacabado
A frase desce rasgando. A sensação no corpo era mais do que jorro de água fervente naquele dia. Era golpe, soluços com lágrimas mal fabricadas. Sensação de traidor farejando a própria criação. E fedia. O nível de sinceridade de Maria era algo desconhecido. Então sentiu que a perda fora somente dela. Mas ela sabia que desconhecer a traição seria pior do que nunca tê-la tocado. Queria ter com ela todos os sentimentos possíveis, bons ou ruins, que importa! Na vida havia experimentado grandes tragos da solidão e do amor, numa mescla embriagadora. Agora que seu corpo sentia os dois revolvendo-se no estômago, queria vomitá-los, mas não sabia se devia. Nada disse, fingiu ter sono e deixou seu namorado, sem explicações, como se as dele fossem mais compreensíveis, como se o silêncio dela trouxesse o consolo.
14 de maio de 2008
No final ele fala, e eu calo.
22 de março de 2008
Partes de textos inacabados e nem começados I
Alguns minutos ao pé da escada...
- Esperando por alguém? – perguntou-me o menino
- Minha desgraça.
- Se é tão ruim assim, por que espera por ele?
- É que as desgraças são boas enquanto acontecem, depois ficam ruins como todas as outras.
Ela imagina que a vontade dele é a de telefoná-la imediatamente, mas que se ele o fizesse, provavelmente se sentiria estúpido e completo desesperado. E quem se importa com esse tipo de pensamento a não ser a própria pessoa? E o único que ela desejava era um traço mínimo de presença, "começos de conversas que nunca tivemos. Mas ele não sente minha falta”
Faltarão aquelas poucas horas da noite que tiveram. Ele não telefonará. E no final os dois acabarão se acostumando com a idéia da ausência. Sentirão apenas aquela noite,
Termina-se nela.
Diálogo com a irmã
- Júlia, você já parou pra pensar no que é Deus?
- Já.
- E aí?
- Deus é um não-sei-o-que misturado com um pouco de sorte.
25 de janeiro de 2008
À mim.
Escrever pra dentro é escrever com o sentimento presente. Essa escrita que vem e que deve satisfações apenas à criadora. Pequenos esboços de gestos grandiosos. Seria injusto ao escritor tentar ser sincero, não o peça tal coisa, isso seria impossível, pois não se consegue sinceridade sempre, não é possível sempre existirem momentos oportunos para as palavras certas. Ao escritor, basta sonhar e, quando ver ser possível a criação de algo belo, senti dor. Pois só quando se dói é que sentimos que algo vive, corrompe as significações mais indiferentes, e faz delas a sua salvação.
11 de janeiro de 2008
Pensamentos de passagem de ano.
Enquanto eu ficava lá sentada, achava que podia existir alguma coisa que me fazia acreditar que eu poderia saber de algo que os outros não sabiam. Todos pareciam contentar-se com a mesma coisa. As mulheres, sempre na disputa de quem tem os melhores peitos e rabos. E os homens em busca desses melhores peitos e rabos. A música age quase que como um instrumento de iniciação a pensamentos idiotas, que seguirão as pessoas noite adentro.
Também tenho minhas tentativas de aceitação, mas a maioria fracassa antes mesmo de começar porque até lá já estou enjoada em me perceber no meio de tudo aquilo. Desisto, em busca de algo que não sei exatamente o que é - claro, as pessoas egoístas sempre querem achar tudo na vida sozinhas, como se fossem receber alguma revelação divina e individual; algo como saber que jogarão uma bomba no centro do mundo e poucos afortunados, incluindo você lógico, se salvarão. Toda aquela gente dançando, rabos rebolando e pares de pernas maravilhosas em microssaias: tudo, claro, posto estrategicamente! Lindas mulheres pra lá e pra cá – elas estão por todos os lados -, dando seus saltinhos e risadas abafadas a cada elogio grosseiro sobre seus decotes. No final, todo um ritual de arruma-dança-bebe-conversas-dinheiro... Tudo resumido em uma finalidade lógica e simples: foder.
E eu achando que sabia mais do que eles! Talvez o único que seja é isto: toda essa gente estúpida, tanto esforço por uma foda, e eu como uma também estúpida – afinal, quero me dar o direito de ser humana – também devo querer a mesma coisa. A diferença era que eu tinha notado, e só essa razão me fez querer evitar aquela realidade fodida. Sendo assim, comprei mais uma cerveja antes de me desesperar na noite e em todo meu antisocialismo, bebi e brindei, a mim mesma.
Esperança, ou falta de
6 de janeiro de 2008
Teatro sem nome (parte 1)
(Com tom irritadiço) No fim, tudo fica para os outros que, em geral não fizeram esforço algum!
Então vamos, vamos! Vou fazer você experimentar a alegria...
Mulher 1
E conhecer o prazer!
Rei
(Arranca os braços de suas mãos, ameaçador) Besteira! Pra que? (sorrindo)
O Rei vai à mesa, onde senta se senta e começa a beber. Em pouco tempo, já se nota em seus traços as conseqüências da bebida em excesso.
Rei
(Bêbado e choroso) E o que fará o rei que virá depois de mim?
O que já foi feito!
Besteira! (olha para o copo e sorri)
(Vai até o Rei, e ajoelha-se diante dele) E eu que vou ter o mesmo destino que qualquer insensato! Para que, então, me tornei sábio?
Mulher 1
(Que estava de pé, no outro canto do palco. Está com os braços cruzados) Logo logo vocês se esquecerão de tudo que foi feito. (Anda em direção ao Rei e Homem 1) Afinal, o sábio morre da mesma forma que o insensato.
E por que eu deveria deixar tudo para o homem que virá depois de mim?
(Olha para Mulher 1) E quem sabe se ele será sábio ou insensato!?
(Indiferença) De qualquer modo o que virá será o dono de tudo mesmo.
A última fala chama a atenção do Rei. Se nota nele um leve desespero. Ele levanta, cambaleia, e sai.
Homem 1
(Olhando para o Rei. Para Mulher 1) O que resta para esse homem?
Mulher 1
Até a noite ele não vai conseguir descansar.
Homem 1 dirigi-se à mesa onde estava o Rei. Senta, e começa a devorar tudo. Parece-lhe faltar educação. Todos o olham com espanto cochichando entre eles, apontando-o.
Vejam só... Parece então que a verdadeira felicidade do homem está em comer e beber!
Homem 2
De fato, quem poderia comer e beber, sem que isso lhe venha de Deus?
Homem 1
(Com a boca cheia de comida e em tom irritadiço) A quem lhe agrade!
Onde está o justo?
(Sequer vira o rosto para falar-lhe) Cada coisa a seu tempo!
(Rindo) Mais feliz que esse só quem ainda não nasceu!
Luzes de apagam. Segue um som de briga, gritos e coisas sendo quebradas.
Poema tirado de uma entrevista
e o poder que é afrodisíaco
[polui]
O mais profundo é a pele
Preparar-se sempre, para o auto-fracasso
e a autofagia..
O poder nos isola
tenha certeza de que você está preparado para o pior
o poder sem abuso perde o encanto
ps: aprender com a idéia.