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6 de julho de 2008

Palavras a uma estranha

"A distância entre eu e você se mede apenas pelas palavras que não foram ditas...todo o resto, cada gesto, cada traço, tudo aproxima o homem ao outro; é isso que nos torna tão intensos. Gosto do que você escreve, mas ao mesmo tempo me dói e não consigo ler tudo. Tenho certeza de que você as vezes ao ler algo já sentiu como se aquilo não fosse do autor, mas fosse seu, uma parte íntima escondida que finalmente teve algum rasgo de vida. Ao mesmo tempo que gosto das palavras, tento evitá-las pra não me transtornar ainda mais. Por isso não tenho um jeito só: sou rude, direta, adoro palavrões, adoro bebados e loucos, por nunca saberem eles da mesma história ou ouvi-la nas suas mais diversas versões."

À Maria...
uma bossa desconhecida.

17 de junho de 2008

Poesia primeira

Seja conclusivo na forma, no medo, na adversidade,
no jogo, na vida, no dia, na rua, no olhar, na noite,
nas férias, no passo, no tempo, no gesto.

Não busque o passado,
a poesia não deve ser saudosista,
ela interpreta os presentes sentimentos de um poeta

A poesia tem um tempo só:
e ele é rápido, certeiro, esmagador, asfixiante,
[tóxico]

A poesia nos leva para um outro lado,
que é só nosso.
Um universo limitado na sintaxe,
mas infinito em si mesmo.

Sem pausa, dúvida ou receio.
Deixe que as palavras se fixem em algo,
e algo começará a surgir.

A poesia é resultado da própria poesia.
É uma paixão explicável e,
ao mesmo tempo incrivelmente duvidosa.

A vida é breve,
e a poesia está nos intervalos.

25 de maio de 2008

Idéia-Imagem

Um verso inacabado

- Maria, você já me traiu?
A frase desce rasgando. A sensação no corpo era mais do que jorro de água fervente naquele dia. Era golpe, soluços com lágrimas mal fabricadas. Sensação de traidor farejando a própria criação. E fedia. O nível de sinceridade de Maria era algo desconhecido. Então sentiu que a perda fora somente dela. Mas ela sabia que desconhecer a traição seria pior do que nunca tê-la tocado. Queria ter com ela todos os sentimentos possíveis, bons ou ruins, que importa! Na vida havia experimentado grandes tragos da solidão e do amor, numa mescla embriagadora. Agora que seu corpo sentia os dois revolvendo-se no estômago, queria vomitá-los, mas não sabia se devia. Nada disse, fingiu ter sono e deixou seu namorado, sem explicações, como se as dele fossem mais compreensíveis, como se o silêncio dela trouxesse o consolo.
Era Maria a mais imprevisível das criaturas. Maria, nome de santa. Santa só no nome, como todas outras Marias antes da primeira. Para essa, a maior riqueza tinha tom azul. Azul de águas que levavam significado a um mundo mal acabado entre versos e areia. Sozinha, ela sentia o peso de um corpo que ainda seria maior do que era: corpo de mulher. Por enquanto, as coisas eram apenas suportáveis porque imaginava sentir nada muito diferente dos outros. Presenteava às pessoas apenas um olhar irritante e fixo que nada dizia, e que desejava horas de areia e mar, para não mais sentir o corpo em crescimento, mãos com cada vez mais linhas e olhos cheios de lágrimas.
Maria não gostava de palavras, para ela sinais de comprometimento entre um ou mais conhecidos. E como todos sempre lhe foram estranhos! Fascinava-a, mas não os desejava. Entre amigos e admiradores, os primeiros e os últimos nunca conseguiram realmente tê-la. Eles eram pequenos gestos de gratidão ao que Maria ainda não sabia. Ia então ao encontro daquele caminho de sempre, desembocando no mar.
Ansiava pela estranheza das coisas, conhecimento que só poderia vir de uma experiência solitária. Inutilidade de uma língua que para Maria era desnecessária. Nada parecia realmente doer, afinal, ela era apenas sozinha. “E que grande dor poderia trazer tão forte sentimento como a solidão?” Observava, admirada com um ambiente onde o familiar era o objeto por entre morros. Um mar que rasgava o silêncio de tudo. O som de séculos de gerações. Sensação de gritos cada vez mais altos.
Nos momentos de união dos dois solitários, existiam sentimentos e pensamentos de mudança. Maria não pensava em quanto tempo no mar tinha desperdiçado – ou apenas gasto. De chão parecia faltar, mas não havia saudades. Saiu e sentou-se numa pedra que estava no mesmo caminho que sua tristeza. Chorou pelos anos que não viu passar. Esses instantes de realidade a faziam descobrir novos sentimentos, que mais tarde talvez lhe pudessem ser úteis. Parecia que aqueles traços de vida, que Maria suportava tão frágil e delicadamente, respondiam a alguma coisa quando fora da água. Seguidora de conselhos, suposições e caminhos tão incertos. Intervalos de tempo que gastava mergulhada em idéias de nada.
Maria agia como se não feita para sentimentos grandiosos; inconstante demais para decidir-se entre dor ou felicidade. Ao menos pensamentos incompletos deixavam-na sentir-se menos culpada pelas coisas que fazia e já não explicava. Podia justificar-se menos para si. Mantinha uma consciência que não se fixava em uma só verdade, um só extremo. Seria sempre duas verdadeiras Marias. No amor e solidão, dois únicos grandes sentimentos. E a solidão era para os egoístas. Gostava de tê-la, mas o que lhe doía era o amor.
Depois do ocorrido com o único namorado, Maria sentiu que o peso do corpo finalmente correspondia ao coração. Mais madura, viu adiante um novo mar, mostrando uma cor mais fria, com textura de lama. Pensou no que dizem, que em algum lugar pode existir alguém que a complete. Pensou nisso mais profundamente. Foi assustador. Não queria alguém que a completasse, apenas que a deixassem viver.
Decidiu então dizer pela primeira vez alguma coisa que fosse realmente importante aos outros. Qualquer coisa, desde que pudesse descrever os pequenos traços de suas paixões. Maria queria gritar o que sentia pelo mar, a paixão pelos que não conhecia e por sua imobilidade ao amor, mesmo desejando-o tanto. Percebeu então que tudo sempre a tinha acompanhado desde cedo. Mas agora, pela primeira vez, precisava dizer; a mal articulada e mal explicada mulher. Sim, tudo sempre havia pertencido a ela. Então juntou uma massa homogênea de pensamentos preconceituosos, piedosos ou não, àquelas pessoas que não lhe deviam nada. Sentiu vontade de estranhos: os mesmos contornos, os mesmos gestos e sorrisos largos. Talvez fosse a dor de um amor não correspondido, tão raro entre os que o procuram.
Passavam os dias e Maria visitava o mar cada vez menos. Pensava o amor que nunca chegava, nessa dor que nunca era parte dela. Ia a pé, observando coisas que não a faziam ser. No final, sempre sobrava um mar e uma mulher. Foi dar um mergulho. O sol se punha sem nuvens e sem melancolia. Mas o mar a traria de volta, de volta ao seu lado adulto.

14 de maio de 2008

No final ele fala, e eu calo.

Eu deitada no sofá. Quase 5h quando ele entra à porta. Abro os olhos mas na verdade os queria fechados, sem ele comigo. Sinto cheiro de noite em todo seu corpo. Olho em volta e em direção a dele. Levanto querendo que saia uma palavra minha e dele o silêncio. No final ele fala, e eu calo. Não o entendo, me torno indiferente, e isso sempre o enfureceu. Gosto da raiva, ela revela da maneira mais dura a melhor e a pior parte do homem. Ela é direta, imbatível, sincera. E a dor que ela causa consegue ser maior do que qualquer palavra de amor, qualquer carinho, por mais virtuoso que se queira.

22 de março de 2008

Partes de textos inacabados e nem começados I

Alguns minutos ao pé da escada...

- Esperando por alguém? – perguntou-me o menino

- Minha desgraça.

- Se é tão ruim assim, por que espera por ele?

- É que as desgraças são boas enquanto acontecem, depois ficam ruins como todas as outras.

Ela imagina que a vontade dele é a de telefoná-la imediatamente, mas que se ele o fizesse, provavelmente se sentiria estúpido e completo desesperado. E quem se importa com esse tipo de pensamento a não ser a própria pessoa? E o único que ela desejava era um traço mínimo de presença, "começos de conversas que nunca tivemos. Mas ele não sente minha falta”

Faltarão aquelas poucas horas da noite que tiveram. Ele não telefonará. E no final os dois acabarão se acostumando com a idéia da ausência. Sentirão apenas aquela noite,

Termina-se nela.

Diálogo com a irmã

Conversando com minha irmã Júlia, de sete anos:
- Júlia, você já parou pra pensar no que é Deus?
- Já.
- E aí?
- Deus é um não-sei-o-que misturado com um pouco de sorte.

25 de janeiro de 2008

À mim.

Escrever pra dentro é escrever com o sentimento presente. Essa escrita que vem e que deve satisfações apenas à criadora. Pequenos esboços de gestos grandiosos. Seria injusto ao escritor tentar ser sincero, não o peça tal coisa, isso seria impossível, pois não se consegue sinceridade sempre, não é possível sempre existirem momentos oportunos para as palavras certas. Ao escritor, basta sonhar e, quando ver ser possível a criação de algo belo, senti dor. Pois só quando se dói é que sentimos que algo vive, corrompe as significações mais indiferentes, e faz delas a sua salvação.

11 de janeiro de 2008

Pensamentos de passagem de ano.

Enquanto eu ficava lá sentada, achava que podia existir alguma coisa que me fazia acreditar que eu poderia saber de algo que os outros não sabiam. Todos pareciam contentar-se com a mesma coisa. As mulheres, sempre na disputa de quem tem os melhores peitos e rabos. E os homens em busca desses melhores peitos e rabos. A música age quase que como um instrumento de iniciação a pensamentos idiotas, que seguirão as pessoas noite adentro.


Também tenho minhas tentativas de aceitação, mas a maioria fracassa antes mesmo de começar porque até lá já estou enjoada em me perceber no meio de tudo aquilo. Desisto, em busca de algo que não sei exatamente o que é - claro, as pessoas egoístas sempre querem achar tudo na vida sozinhas, como se fossem receber alguma revelação divina e individual; algo como saber que jogarão uma bomba no centro do mundo e poucos afortunados, incluindo você lógico, se salvarão. Toda aquela gente dançando, rabos rebolando e pares de pernas maravilhosas em microssaias: tudo, claro, posto estrategicamente! Lindas mulheres pra lá e pra cá – elas estão por todos os lados -, dando seus saltinhos e risadas abafadas a cada elogio grosseiro sobre seus decotes. No final, todo um ritual de arruma-dança-bebe-conversas-dinheiro... Tudo resumido em uma finalidade lógica e simples: foder.


E eu achando que sabia mais do que eles! Talvez o único que seja é isto: toda essa gente estúpida, tanto esforço por uma foda, e eu como uma também estúpida – afinal, quero me dar o direito de ser humana – também devo querer a mesma coisa. A diferença era que eu tinha notado, e só essa razão me fez querer evitar aquela realidade fodida. Sendo assim, comprei mais uma cerveja antes de me desesperar na noite e em todo meu antisocialismo, bebi e brindei, a mim mesma.

Esperança, ou falta de

Depois, quando tudo o que foi bom vira apenas uma lembrança, as coisas ficam mais dolorosas de se suportar. "Mas é claro que valeu a pena assim mesmo", você pensa. Mas isso não tira de você a dor e nem o conhecimento de que esses momentos não aconterão de novo. E no fim, a você, só resta sorrir das amizades feitas e dos momentos que não tem como durar para sempre. No amor presente, a forma mais dolorida de amar, porque não se tem esperança, mas em troca, você recebeu uma vida inteira em alguns poucos momentos. E só resta a você ser grato por pouco, e ao mesmo tempo por tanta intensidade.