25 de janeiro de 2008

À mim.

Escrever pra dentro é escrever com o sentimento presente. Essa escrita que vem e que deve satisfações apenas à criadora. Pequenos esboços de gestos grandiosos. Seria injusto ao escritor tentar ser sincero, não o peça tal coisa, isso seria impossível, pois não se consegue sinceridade sempre, não é possível sempre existirem momentos oportunos para as palavras certas. Ao escritor, basta sonhar e, quando ver ser possível a criação de algo belo, senti dor. Pois só quando se dói é que sentimos que algo vive, corrompe as significações mais indiferentes, e faz delas a sua salvação.

11 de janeiro de 2008

Pensamentos de passagem de ano.

Enquanto eu ficava lá sentada, achava que podia existir alguma coisa que me fazia acreditar que eu poderia saber de algo que os outros não sabiam. Todos pareciam contentar-se com a mesma coisa. As mulheres, sempre na disputa de quem tem os melhores peitos e rabos. E os homens em busca desses melhores peitos e rabos. A música age quase que como um instrumento de iniciação a pensamentos idiotas, que seguirão as pessoas noite adentro.


Também tenho minhas tentativas de aceitação, mas a maioria fracassa antes mesmo de começar porque até lá já estou enjoada em me perceber no meio de tudo aquilo. Desisto, em busca de algo que não sei exatamente o que é - claro, as pessoas egoístas sempre querem achar tudo na vida sozinhas, como se fossem receber alguma revelação divina e individual; algo como saber que jogarão uma bomba no centro do mundo e poucos afortunados, incluindo você lógico, se salvarão. Toda aquela gente dançando, rabos rebolando e pares de pernas maravilhosas em microssaias: tudo, claro, posto estrategicamente! Lindas mulheres pra lá e pra cá – elas estão por todos os lados -, dando seus saltinhos e risadas abafadas a cada elogio grosseiro sobre seus decotes. No final, todo um ritual de arruma-dança-bebe-conversas-dinheiro... Tudo resumido em uma finalidade lógica e simples: foder.


E eu achando que sabia mais do que eles! Talvez o único que seja é isto: toda essa gente estúpida, tanto esforço por uma foda, e eu como uma também estúpida – afinal, quero me dar o direito de ser humana – também devo querer a mesma coisa. A diferença era que eu tinha notado, e só essa razão me fez querer evitar aquela realidade fodida. Sendo assim, comprei mais uma cerveja antes de me desesperar na noite e em todo meu antisocialismo, bebi e brindei, a mim mesma.

Esperança, ou falta de

Depois, quando tudo o que foi bom vira apenas uma lembrança, as coisas ficam mais dolorosas de se suportar. "Mas é claro que valeu a pena assim mesmo", você pensa. Mas isso não tira de você a dor e nem o conhecimento de que esses momentos não aconterão de novo. E no fim, a você, só resta sorrir das amizades feitas e dos momentos que não tem como durar para sempre. No amor presente, a forma mais dolorida de amar, porque não se tem esperança, mas em troca, você recebeu uma vida inteira em alguns poucos momentos. E só resta a você ser grato por pouco, e ao mesmo tempo por tanta intensidade.

6 de janeiro de 2008

Teatro sem nome (parte 1)

Peça teatral em fase de criação, baseada no livro de Eclesíastes do Antigo Testamento. Ao longo do blog será postada - em tempos irregulares - a continuação da história. Como cada cena é perfeitamente entendida por si mesma, a separação não prejudica o significado.

Cena I.
No palco uma pequena mesa ao canto, farta de comes e bebes. Entra o Rei.

Rei
(Com tom irritadiço) No fim, tudo fica para os outros que, em geral não fizeram esforço algum! 


Homem 1 e Mulher 1 entram em cena, e, apressadamente, o agarram cada um em cada braço, arrastando o Rei em direção ao público.
Homem 1
Então vamos, vamos! Vou fazer você experimentar a alegria...

Mulher 1
E conhecer o prazer!

Rei
(Arranca os braços de suas mãos, ameaçador) Besteira! Pra que? (sorrindo)

O Rei vai à mesa, onde senta se senta e começa a beber. Em pouco tempo, já se nota em seus traços as conseqüências da bebida em excesso.

Rei
(Bêbado e choroso) E o que fará o rei que virá depois de mim?

Homem 1
O que já foi feito! 

Rei
Besteira! (olha para o copo e sorri)

Homem 1
(Vai até o Rei, e ajoelha-se diante dele) E eu que vou ter o mesmo destino que qualquer insensato! Para que, então, me tornei sábio?

Mulher 1
(Que estava de pé, no outro canto do palco. Está com os braços cruzados) Logo logo vocês se esquecerão de tudo que foi feito. (Anda em direção ao Rei e Homem 1) Afinal, o sábio morre da mesma forma que o insensato.

 
Rei
E por que eu deveria deixar tudo para o homem que virá depois de mim?

Homem 1
(Olha para Mulher 1) E quem sabe se ele será sábio ou insensato!?

Mulher 1
(Indiferença) De qualquer modo o que virá será o dono de tudo mesmo.

A última fala chama a atenção do Rei. Se nota nele um leve desespero. Ele levanta, cambaleia, e sai.

Homem 1
(Olhando para o Rei. Para Mulher 1) O que resta para esse homem?

Mulher 1
Até a noite ele não vai conseguir descansar.

Homem 1 dirigi-se à mesa onde estava o Rei. Senta, e começa a devorar tudo. Parece-lhe faltar educação. Todos o olham com espanto cochichando entre eles, apontando-o.

 
Mulher 1
Vejam só... Parece então que a verdadeira felicidade do homem está em comer e beber! 

Homem 1 continua a comer, nunca parecendo estar satisfeito, estampa uma felicidade que irrita os outros. 
Entra Homem 2

Homem 2
De fato, quem poderia comer e beber, sem que isso lhe venha de Deus?

Homem 1
(Com a boca cheia de comida e em tom irritadiço) A quem lhe agrade!
Homem 2 calmamente, e começa a olhar para os atores, como se estivesse buscando algo. Pára, olhando para Homem 1, curioso.


Homem 2
Onde está o justo? 

Homem 1
(Sequer vira o rosto para falar-lhe) Cada coisa a seu tempo!

Homem 2 segue buscando com o olhar, dessa vez na platéia. Pára em Homem 1, ri um riso pequeno.
Homem 2
(Rindo) Mais feliz que esse só quem ainda não nasceu!

Luzes vão ficando fracas. De repente, Mulher 1 e Homem 2 vão em direção ao Homem 1, com cara de famintos. Agarram-no e tentam arrancá-lo da mesa. Homem 1 se defende, se debate. Mas todo seu esforço parece inútil.

Luzes de apagam. Segue um som de briga, gritos e coisas sendo quebradas.

Poema tirado de uma entrevista

Anos de provocações
e o poder que é afrodisíaco
[polui]

O mais profundo é a pele
Preparar-se sempre, para o auto-fracasso
e a autofagia..

O poder nos isola
tenha certeza de que você está preparado para o pior

o poder sem abuso perde o encanto

ps: aprender com a idéia.

Poema sin dueño

Realmente te quiero
y por eso te divierto

Sólo hay un corazón sin dueño.

Diversión es amor
amor es pasión
pasión es el odio
y el odio, el amor

Y cuando llegan tantas cosas al corazón...

5 de janeiro de 2008

Estupidez iniciada

Um ser que também é capaz de poder fazer sofrer um mundo inteiro. Vontade de amar pra sempre - mesmo sabendo que esse sempre tem um limite dentro do próprio existir. E daí querer ser tanta coisa pra depois ver que não me reconheci na maior parte delas.
 
A vulgaridade em pessoa feminina. Um ser mal-amado por não ter quem a ame. E se não há quem a ame é porque não fez por merecer. E por que seria merecedora de todas as coisas? De todos os amores... Apenas porque existo, respiro, penso, ajo, como todos os demais? Estupidez... Sim, o mundo sempre foi repleto de estupidez. Sou apenas mais algo que cheira a esse sentimento. 

Também pode ser pena, compreensão... Sim, coisas e estupidez que não quero perder, pois não se sentiriam reais se não existissem em mim.
Adoro os esboços estúpidos e silenciosos, e isso me basta. 

Incompleta como sempre 

O amor é minha auto-suficiência,
e a vida assim, é auto-suficiente.
Amar...
Que verbo!

3 de janeiro de 2008

Diálogo Final

- Então é isso?

- Explico o que vejo apenas uma vez, depois, se tentar explicar de novo, vai sair outra coisa diferente. – disse ela.

- Então você acha que tudo é possível?

Ela riu. Possível era uma palavra muito forte, e não bastava para ela apenas contemplar essa pequena e poderosa junção de letras. Não ousou dizer que não encontrava nas coisas impossíveis alguma possibilidade de existência. Para ela era como se todas as coisas já tivessem sido inventadas.

- Ué, as coisas não poderiam ter saído de um jeito diferente!

Teria então que inventar palavras novas para poder explicar as coisas que ainda germinavam e que, algum dia, explodiriam em milhões de pedaços de sentimentos inéditos. E aí todos diriam: “Veja se você não termina como ela, ela não ama, ela não é amada!”

Indecifrável e poderosa, e nenhuma dessas duas coisas também na maioria das vezes. Ela era feita das partes do mundo que menos entendia. Depois com o silêncio, colocaria sua cabeça no ombro dele, e como se tentasse explicar que se sentia feliz, afundaria seu rosto e o abraçaria com um abraço longo. E ele permaneceria imóvel, tentando explicar-se o que era aquele misto de sentimentos que o tocava quando tinha a presença dela. Não sabia se eram verdadeiramente bons, mas pelo menos não os sentia ruins. E enquanto pudesse agüentar, o seu silêncio serviria de consolo. Sorriu, mas um sorriso que só ele percebera, e quando fez um leve gesto com as mãos à procura de qualquer pedaço de pele dela, seu rosto surgiu do ombro e seus olhos estavam aguardando ansiosamente os dele. Abaixou as mãos, e despertou de seu leve sono que ela o fazia sentir.

- Então... – ele disse.

“Não, meu querido, não vá! Eu sei, sei que te deixo entediada, mas calma, calma, não me entender... O mesmo eu sinto quando estou com você. Como poderíamos então, confiar um no outro? Sim, já nos calamos demais com tanta presença, e ainda não nos entendemos meu bem. E você aí, tão perto de mim, mas ao mesmo tempo tão longe. E depois... e depois? Não mais te tocar, te falar... Será que só depois disso nos entenderíamos? Não sei...”

- Sim.

“Por que você insiste em ser estranha? Por que ao menos uma vez não me conta algo real, tangível. Quero poder te tocar, mas você não deixa. Esse seu sorriso, suas palavras e gestos loucos me fazem te sentir menos ainda. Vai, fala comigo, de verdade, quero te conhecer, saber de você, como você levanta, sua cor favorita, sua comida, seu cheiro... você... é você... Ah, me diga! Como poder te sentir se você se mostra tão longe, tão suficiente, tão real? Não.... não quero mais isso... e falta tão pouco!”

- Vai fazer o que hoje?

“Eu sabia! Por que ele não me fala de verdade? Por que insiste em parecer despreocupado. Ele se mostra tão vivo sem mim, tão íntimo... O que eu vou fazer hoje? Como se isso realmente lhe importasse! Mas eu respondo, vou ter que responder meu bem, senão você pensará que me esforço em parecer louca, e não há nada pior do que um sentimento forçado. Mas então o que estamos fazendo? Por acaso essa conversa não seguiria o mesmo rumo? Por um acaso eu queria que ele pudesse me ler inteira agora, saber exatamente o que estou pensando, para poder nos poupar dessa conversa desinteressada”

- Não sei.

“E você ainda insiste! Vá... se livre dessa presença, pelo menos depois você não precisa de conversas cansativas e estranhas. Mas não, eu preciso saber mais de você! Mas estou com raiva, e não quero te dizer porque você nunca me diz... Vá, diga que quer ir embora, que não me quer mais, porque eu ainda não arrumei coragem.”

- Eu te ligo pra marcarmos alguma coisa, tenho que ir agora.

“Eu sabia, você enjoou. Ou talvez esteja apenas cansado. Mas em qualquer um dos casos, por que não me diz? Seria tão mais suportável... seria... seria... seria suportavelmente triste. Mas eu não me atrevo a forçar o que não consigo ser para agradar-te, não consigo mentir pra mim mesma. E me sinto tão monótona. O que você quer? Eu te quero agora meu bem, sim, quero. Não só a parte e o pedaço, mas todo, e poder por alguns instantes te chamar de meu, como aquelas músicas que já nos são parte, e que esquecemos completamente que não foram feitas por nós; mas elas existem pra nos lembrar de momentos que serão eternos, e agora eu te quero ser eterna. Mas não sei o que fazer. Um gesto louco, que nem eu tenho coragem talvez, ou agir ‘normalmente’ como até agora fui somente através de máscaras. Vai, olhe pra mim, isso, não desvie o olhar... preciso que você saiba o que estou pensando, pelo menos uma parte mínima. Mas você foge, me olha sem olhar, me erra.”

- Tudo bem.

“Não adianta. Ela sente tanta coisa e não consegue me sentir agora. Em que estará pensando, será que desconfia que estou com raiva e que realmente desejo ir embora? Será que sabe que ao mesmo tempo que quero ir bastaria a palavra certa para ficar um pouco mais? Ah, eu não preciso mais disso! Te quero sim, mas não através de falas, nem através de sorrisos. É algo mais que isso, mas não chega a ser completamente importante. Talvez eu devesse parar de pensar em você, porque quanto mais eu faço menos eu te sinto. Vou indo então. Não queria, mas foi você quem escolheu. Talvez o desejo de você volte amanhã ou daqui algumas poucas horas, quem sabe! Mas agora adeus.”

- Então tchau.

( Curto silêncio. Pequeno e ligeiro beijo)

- Tchau.

(Ele se vira e dá de costas)

- Ei!

“Ela me chamou. Você me deu adeus, mas me chamou de volta. Será agora talvez você dirá o que eu queria ouvir? Será que eu não vou mais precisar de tanto silêncio, irritações e esperas quando estou com você? Vai...me diga... te esperarei por agora... mas não demore muito, o sono pode voltar.”

“É agora! Te direi, gritarei bem alto que mais do que te quero. Te adoro e desejo, mesmo que seja apenas nesses loucos segundos. Então você saberá que eu sou mais do que palavras fortes e feitas. Não sou de frases prontas e nem de sentimentos loucos. Te direi e então poderei me sentir normal e íntima a você, mesmo que você não me queira mais. Sim, o que importa é que te direi. E mais do que isso, irei querer vê-lo no dia seguinte, e no próximo, e no próximo, e no próximo... Até que os dias, as horas e nossos segundos acabem. Ou até que você olhe para mim sorrindo – e como eu amo seu sorriso tímido- e diga que enjoou, que não me quer mais. Mas diga, pois eu preciso te ouvir mais do que nunca.”

- Sim?

“Vai, diga qualquer coisa. Qualquer uma daquelas palavras bonitas que só você consegue. Estou aceitando frases prontas, palavras fortes e feitas... o que seja! Eu só quero algumas poucas palavras suas.”

- Me liga mesmo né?

“...”

- Ligo sim... Adeus!

- Adeus!

Ah se eles gritassem... não teriam mais medo, ele fugiria junto com os gritos.

2 de janeiro de 2008

2 de janeiro

O ruim disso tudo é você sempre tentar relembrar exatamente as coisas aconteceram e pô-las no papel. É nessas horas que me dou conta de quanto sou infeliz por tentar viver reavendo minhas lembranças. Pobre do escritor que vive delas, pois a escrita mais dolorosa é a que pode ser realizada enquanto ainda existe dentro da cabeça e do coração do poeta. Em seguida ela morre, como qualquer outra coisa que antes era viva. Viver de lembranças é viver algo que não é mais seu, algo que não é poeta, é, somente, egocentrismo. Mas acho que não seríamos muita coisa sem ele também.