5 de novembro de 2008

Quando tudo finda

Passar por coisas de vida e o que te resta é a última dança da noite.
Chego já cansada...De passar por coisas que te fingem, te afligem.
Tanta vida em tempo pouco.
Vale mesmo a pena saber que somos finitos.
Mas fácil é conseguir compreender a dor dos outros,
e assim não sentir as dores das voltas que passam.
Mistura de dor e alegria grandes assim deveriam ser infinitas em nós. Apenas.
Fim da noite e o tomo o último gole de álcool. Quente. Quieta. Morta. Demasiada calma.

29 de outubro de 2008

23h em Outubro

Sem muito em mim. Talvez porque esteja nos outros. Mas ainda há com o que encantar-se. Há o muito dos poucos sentimentos que nascem, pequenos e insistentes. Há vida por trás de palavras mal-feitas e não-vindas. Até...há também os gestos que deixamos ausentes, receosos que somos pelo depois. Pensar que ainda páro pra seguir bobagens na minha cabeça. Enraizadas dentro de mim, agora só um novo sentimento, duro e forte, para mudar tanta coisa. Respiração difícil em dias fáceis de levar. Não prestamos muito atenção ao que há do outro lado da rua. E acendo meu cigarro...esperando não um pensamento a mais, mas um gesto.

26 de outubro de 2008

O amor a noite.

Metáforas das minhas noites...noite adentro de minutos longos, exaustivos, infiéis ao que me sei. Pois então eu assim me faço! Me faço entendida de palavras bonitas, na tentativa de, assim, aliviar expectativas alheias. Não sei nem das minhas, quanto mais das palavras que nunca me foram. Noites adentro e saber que a eternidade nunca será parte de nós. Nem o amor poderia então ser eterno; ele se alimenta do nosso medo da solidão, da finitude. Amamos na tentativa de existirmos um pouco mais, em tentar extender-nos (e entender-mos) além de nós mesmos. Amar é tentar ser infinito.

Boa Noite a Dan

Que não haja nada depois que não nos sirva nos pequenos e ridículos instantes de agora, de hoje a noite. Sim, continuarei com minhas frases curtas, impactantes e tolas, é o que me basta, o que me acerta logo após uma longa caminhada pelas minhas veias. E assim, descobrir um universo inteiro em alguns centímetros de carne. O que me falta é cantar para um desconhecido, amar um inexistente, correr pelos caminhos que já passei e esquecer dos sorrisos que não levei. Comigo, tudo é pouco, mas do pouco que entendo, que sei, é hoje, o que sou.

...

A poesia para ser completa não precisa de rimas:
é completa no nascer dos sentimentos, e deles ser entendida.
Poesia é aquilo que se conhece e dói.
É algo lindo,
triste na sua simplicidade.
Tanta vida nas junções das palavras.

Existe um Deus em cada indivíduo,
pronto pra apoderar-se dos rasgos alheios.
Existe tanta coisa indizível
sem espaço
sem traço
que morre tão logo apenas tenta nascer.

Pensar em mim, sonhar com ele (e nisso sonhar com tudo)
Pedaço quebrado de consciência.
Desejar paixões finitas, diversas.
Alimentar-me de toque. Cair com um abraço. Morrer sem cansaço.
Sair por aí (e sorrir),
ao passar entra as coisas que jamais serão minhas.

Passageiros...Inacabados somos. Sem uma arte natural.
Deitamos e já pensamos em conquistar o mundo,
não suportamos a idéia de não controlar os espaços do tempo que nos deram.

Que me venham então os sonos de pensamentos vazios e facos
.

17 de outubro de 2008

Depois de Quinta-feira...

Quem sabe um dia controlar o querer.
Parar os instantes e as respirações fracas (mas insistentes) do gostar não-correspondido.
Seguir nos dias sem deixar pedaços para trás.
Dor no peito.
[somente dele]
Mãos mexem angustiosamente.
Pernas balançam a um ritmo frenético....Meu coração imbatível!....e inquieto.

Quando o vejo é apenas para o sorriso.
[meu olhar fixo e certo]
Desligar a alma das pequenas belezas não-correspondidas, e irresistíveis!
Não tê-lo...desejá-lo cada vez que me deito.
Sair de mim,
de você.
Teria graça?
Me deixe doer!

Caber-se

Usarmos as coisas,
e não apenas elas,
pois tão somente as coisas são usadas sem o "quem".
Quem se quer abraçar.
Quem se quer beijar.
E em um dia querer tudo,
Pra caber somente em si.

7 de setembro de 2008

Um dia a mais
ou a menos,
pra gente tanto faz.
Só queria ter ouvido sua canção
sobre o samba do amor demais
.

Ontem

E suportar a beleza
de um amor de amanhã.
Andar os passos inesperados.

Espera que o sorriso já vem
verdade refeita em mim
e no meu coração, mais ninguém.

Queria era andar por aí,
te olhar e falar as palavras bonitas que nunca ousei dizer.
E mostrar minhas canções mal-feitas
que uma vez quiseram andar em direção a você

_______

meu bem,
querer-te não é mais meu privilégio

.

Mas o ponto não é se conhecer inteiramente... se eu soubesse quem eu sou não teria a menor graça! O empolgante na vida é saber a mistura certa entre você e as coisas.

.

Um dia onde se nasce
morre a vontade de se saber porque
Não quero dizer mais nada
Mas não se esqueça do espaço
entre eu e você.
Instante indizível
onde Deus está presente
meus dias feitos de sol, areia e mar
e meu tempo fixado ao frio ausente

__________________________


(Mais sobre você que nunca vou saber)

Sobre você

O amor não surge nos momentos de reflexão em bar: ali, somos patéticos desesperados à procura de carne. O amor surge do improviso dos gestos simples e fáceis. Surpresa boa que somente sentimos quando de verdade dói. Não se pode desperdiçar isso. O mundo não funcionaria se estivéssemos todos apaixonados, senão estariam todos se rebelando com a distância e as saudades, caos total.

Amor distante
amor demais.
E a partir disso
não querer nada mais.

.

Estancamos em algum espaço
quando não experimentamos novos sentimentos e os compreendemos.

___________________________________

Pernas mais curtas que pensamentos
amanhã fazer o mesmo que agora
não prendo o choro dos sentimentos demais
chorei apenas pelo que não sabia
e que me fez sentir a parte do peso das coisas



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Foi embora
sem mim
sem nunca ter havido
nós...
dois

6 de julho de 2008

Palavras a uma estranha

"A distância entre eu e você se mede apenas pelas palavras que não foram ditas...todo o resto, cada gesto, cada traço, tudo aproxima o homem ao outro; é isso que nos torna tão intensos. Gosto do que você escreve, mas ao mesmo tempo me dói e não consigo ler tudo. Tenho certeza de que você as vezes ao ler algo já sentiu como se aquilo não fosse do autor, mas fosse seu, uma parte íntima escondida que finalmente teve algum rasgo de vida. Ao mesmo tempo que gosto das palavras, tento evitá-las pra não me transtornar ainda mais. Por isso não tenho um jeito só: sou rude, direta, adoro palavrões, adoro bebados e loucos, por nunca saberem eles da mesma história ou ouvi-la nas suas mais diversas versões."

À Maria...
uma bossa desconhecida.

17 de junho de 2008

Poesia primeira

Seja conclusivo na forma, no medo, na adversidade,
no jogo, na vida, no dia, na rua, no olhar, na noite,
nas férias, no passo, no tempo, no gesto.

Não busque o passado,
a poesia não deve ser saudosista,
ela interpreta os presentes sentimentos de um poeta

A poesia tem um tempo só:
e ele é rápido, certeiro, esmagador, asfixiante,
[tóxico]

A poesia nos leva para um outro lado,
que é só nosso.
Um universo limitado na sintaxe,
mas infinito em si mesmo.

Sem pausa, dúvida ou receio.
Deixe que as palavras se fixem em algo,
e algo começará a surgir.

A poesia é resultado da própria poesia.
É uma paixão explicável e,
ao mesmo tempo incrivelmente duvidosa.

A vida é breve,
e a poesia está nos intervalos.

25 de maio de 2008

Idéia-Imagem

Um verso inacabado

- Maria, você já me traiu?
A frase desce rasgando. A sensação no corpo era mais do que jorro de água fervente naquele dia. Era golpe, soluços com lágrimas mal fabricadas. Sensação de traidor farejando a própria criação. E fedia. O nível de sinceridade de Maria era algo desconhecido. Então sentiu que a perda fora somente dela. Mas ela sabia que desconhecer a traição seria pior do que nunca tê-la tocado. Queria ter com ela todos os sentimentos possíveis, bons ou ruins, que importa! Na vida havia experimentado grandes tragos da solidão e do amor, numa mescla embriagadora. Agora que seu corpo sentia os dois revolvendo-se no estômago, queria vomitá-los, mas não sabia se devia. Nada disse, fingiu ter sono e deixou seu namorado, sem explicações, como se as dele fossem mais compreensíveis, como se o silêncio dela trouxesse o consolo.
Era Maria a mais imprevisível das criaturas. Maria, nome de santa. Santa só no nome, como todas outras Marias antes da primeira. Para essa, a maior riqueza tinha tom azul. Azul de águas que levavam significado a um mundo mal acabado entre versos e areia. Sozinha, ela sentia o peso de um corpo que ainda seria maior do que era: corpo de mulher. Por enquanto, as coisas eram apenas suportáveis porque imaginava sentir nada muito diferente dos outros. Presenteava às pessoas apenas um olhar irritante e fixo que nada dizia, e que desejava horas de areia e mar, para não mais sentir o corpo em crescimento, mãos com cada vez mais linhas e olhos cheios de lágrimas.
Maria não gostava de palavras, para ela sinais de comprometimento entre um ou mais conhecidos. E como todos sempre lhe foram estranhos! Fascinava-a, mas não os desejava. Entre amigos e admiradores, os primeiros e os últimos nunca conseguiram realmente tê-la. Eles eram pequenos gestos de gratidão ao que Maria ainda não sabia. Ia então ao encontro daquele caminho de sempre, desembocando no mar.
Ansiava pela estranheza das coisas, conhecimento que só poderia vir de uma experiência solitária. Inutilidade de uma língua que para Maria era desnecessária. Nada parecia realmente doer, afinal, ela era apenas sozinha. “E que grande dor poderia trazer tão forte sentimento como a solidão?” Observava, admirada com um ambiente onde o familiar era o objeto por entre morros. Um mar que rasgava o silêncio de tudo. O som de séculos de gerações. Sensação de gritos cada vez mais altos.
Nos momentos de união dos dois solitários, existiam sentimentos e pensamentos de mudança. Maria não pensava em quanto tempo no mar tinha desperdiçado – ou apenas gasto. De chão parecia faltar, mas não havia saudades. Saiu e sentou-se numa pedra que estava no mesmo caminho que sua tristeza. Chorou pelos anos que não viu passar. Esses instantes de realidade a faziam descobrir novos sentimentos, que mais tarde talvez lhe pudessem ser úteis. Parecia que aqueles traços de vida, que Maria suportava tão frágil e delicadamente, respondiam a alguma coisa quando fora da água. Seguidora de conselhos, suposições e caminhos tão incertos. Intervalos de tempo que gastava mergulhada em idéias de nada.
Maria agia como se não feita para sentimentos grandiosos; inconstante demais para decidir-se entre dor ou felicidade. Ao menos pensamentos incompletos deixavam-na sentir-se menos culpada pelas coisas que fazia e já não explicava. Podia justificar-se menos para si. Mantinha uma consciência que não se fixava em uma só verdade, um só extremo. Seria sempre duas verdadeiras Marias. No amor e solidão, dois únicos grandes sentimentos. E a solidão era para os egoístas. Gostava de tê-la, mas o que lhe doía era o amor.
Depois do ocorrido com o único namorado, Maria sentiu que o peso do corpo finalmente correspondia ao coração. Mais madura, viu adiante um novo mar, mostrando uma cor mais fria, com textura de lama. Pensou no que dizem, que em algum lugar pode existir alguém que a complete. Pensou nisso mais profundamente. Foi assustador. Não queria alguém que a completasse, apenas que a deixassem viver.
Decidiu então dizer pela primeira vez alguma coisa que fosse realmente importante aos outros. Qualquer coisa, desde que pudesse descrever os pequenos traços de suas paixões. Maria queria gritar o que sentia pelo mar, a paixão pelos que não conhecia e por sua imobilidade ao amor, mesmo desejando-o tanto. Percebeu então que tudo sempre a tinha acompanhado desde cedo. Mas agora, pela primeira vez, precisava dizer; a mal articulada e mal explicada mulher. Sim, tudo sempre havia pertencido a ela. Então juntou uma massa homogênea de pensamentos preconceituosos, piedosos ou não, àquelas pessoas que não lhe deviam nada. Sentiu vontade de estranhos: os mesmos contornos, os mesmos gestos e sorrisos largos. Talvez fosse a dor de um amor não correspondido, tão raro entre os que o procuram.
Passavam os dias e Maria visitava o mar cada vez menos. Pensava o amor que nunca chegava, nessa dor que nunca era parte dela. Ia a pé, observando coisas que não a faziam ser. No final, sempre sobrava um mar e uma mulher. Foi dar um mergulho. O sol se punha sem nuvens e sem melancolia. Mas o mar a traria de volta, de volta ao seu lado adulto.

14 de maio de 2008

No final ele fala, e eu calo.

Eu deitada no sofá. Quase 5h quando ele entra à porta. Abro os olhos mas na verdade os queria fechados, sem ele comigo. Sinto cheiro de noite em todo seu corpo. Olho em volta e em direção a dele. Levanto querendo que saia uma palavra minha e dele o silêncio. No final ele fala, e eu calo. Não o entendo, me torno indiferente, e isso sempre o enfureceu. Gosto da raiva, ela revela da maneira mais dura a melhor e a pior parte do homem. Ela é direta, imbatível, sincera. E a dor que ela causa consegue ser maior do que qualquer palavra de amor, qualquer carinho, por mais virtuoso que se queira.

22 de março de 2008

Partes de textos inacabados e nem começados I

Alguns minutos ao pé da escada...

- Esperando por alguém? – perguntou-me o menino

- Minha desgraça.

- Se é tão ruim assim, por que espera por ele?

- É que as desgraças são boas enquanto acontecem, depois ficam ruins como todas as outras.

Ela imagina que a vontade dele é a de telefoná-la imediatamente, mas que se ele o fizesse, provavelmente se sentiria estúpido e completo desesperado. E quem se importa com esse tipo de pensamento a não ser a própria pessoa? E o único que ela desejava era um traço mínimo de presença, "começos de conversas que nunca tivemos. Mas ele não sente minha falta”

Faltarão aquelas poucas horas da noite que tiveram. Ele não telefonará. E no final os dois acabarão se acostumando com a idéia da ausência. Sentirão apenas aquela noite,

Termina-se nela.

Diálogo com a irmã

Conversando com minha irmã Júlia, de sete anos:
- Júlia, você já parou pra pensar no que é Deus?
- Já.
- E aí?
- Deus é um não-sei-o-que misturado com um pouco de sorte.

25 de janeiro de 2008

À mim.

Escrever pra dentro é escrever com o sentimento presente. Essa escrita que vem e que deve satisfações apenas à criadora. Pequenos esboços de gestos grandiosos. Seria injusto ao escritor tentar ser sincero, não o peça tal coisa, isso seria impossível, pois não se consegue sinceridade sempre, não é possível sempre existirem momentos oportunos para as palavras certas. Ao escritor, basta sonhar e, quando ver ser possível a criação de algo belo, senti dor. Pois só quando se dói é que sentimos que algo vive, corrompe as significações mais indiferentes, e faz delas a sua salvação.

11 de janeiro de 2008

Pensamentos de passagem de ano.

Enquanto eu ficava lá sentada, achava que podia existir alguma coisa que me fazia acreditar que eu poderia saber de algo que os outros não sabiam. Todos pareciam contentar-se com a mesma coisa. As mulheres, sempre na disputa de quem tem os melhores peitos e rabos. E os homens em busca desses melhores peitos e rabos. A música age quase que como um instrumento de iniciação a pensamentos idiotas, que seguirão as pessoas noite adentro.


Também tenho minhas tentativas de aceitação, mas a maioria fracassa antes mesmo de começar porque até lá já estou enjoada em me perceber no meio de tudo aquilo. Desisto, em busca de algo que não sei exatamente o que é - claro, as pessoas egoístas sempre querem achar tudo na vida sozinhas, como se fossem receber alguma revelação divina e individual; algo como saber que jogarão uma bomba no centro do mundo e poucos afortunados, incluindo você lógico, se salvarão. Toda aquela gente dançando, rabos rebolando e pares de pernas maravilhosas em microssaias: tudo, claro, posto estrategicamente! Lindas mulheres pra lá e pra cá – elas estão por todos os lados -, dando seus saltinhos e risadas abafadas a cada elogio grosseiro sobre seus decotes. No final, todo um ritual de arruma-dança-bebe-conversas-dinheiro... Tudo resumido em uma finalidade lógica e simples: foder.


E eu achando que sabia mais do que eles! Talvez o único que seja é isto: toda essa gente estúpida, tanto esforço por uma foda, e eu como uma também estúpida – afinal, quero me dar o direito de ser humana – também devo querer a mesma coisa. A diferença era que eu tinha notado, e só essa razão me fez querer evitar aquela realidade fodida. Sendo assim, comprei mais uma cerveja antes de me desesperar na noite e em todo meu antisocialismo, bebi e brindei, a mim mesma.

Esperança, ou falta de

Depois, quando tudo o que foi bom vira apenas uma lembrança, as coisas ficam mais dolorosas de se suportar. "Mas é claro que valeu a pena assim mesmo", você pensa. Mas isso não tira de você a dor e nem o conhecimento de que esses momentos não aconterão de novo. E no fim, a você, só resta sorrir das amizades feitas e dos momentos que não tem como durar para sempre. No amor presente, a forma mais dolorida de amar, porque não se tem esperança, mas em troca, você recebeu uma vida inteira em alguns poucos momentos. E só resta a você ser grato por pouco, e ao mesmo tempo por tanta intensidade.

6 de janeiro de 2008

Teatro sem nome (parte 1)

Peça teatral em fase de criação, baseada no livro de Eclesíastes do Antigo Testamento. Ao longo do blog será postada - em tempos irregulares - a continuação da história. Como cada cena é perfeitamente entendida por si mesma, a separação não prejudica o significado.

Cena I.
No palco uma pequena mesa ao canto, farta de comes e bebes. Entra o Rei.

Rei
(Com tom irritadiço) No fim, tudo fica para os outros que, em geral não fizeram esforço algum! 


Homem 1 e Mulher 1 entram em cena, e, apressadamente, o agarram cada um em cada braço, arrastando o Rei em direção ao público.
Homem 1
Então vamos, vamos! Vou fazer você experimentar a alegria...

Mulher 1
E conhecer o prazer!

Rei
(Arranca os braços de suas mãos, ameaçador) Besteira! Pra que? (sorrindo)

O Rei vai à mesa, onde senta se senta e começa a beber. Em pouco tempo, já se nota em seus traços as conseqüências da bebida em excesso.

Rei
(Bêbado e choroso) E o que fará o rei que virá depois de mim?

Homem 1
O que já foi feito! 

Rei
Besteira! (olha para o copo e sorri)

Homem 1
(Vai até o Rei, e ajoelha-se diante dele) E eu que vou ter o mesmo destino que qualquer insensato! Para que, então, me tornei sábio?

Mulher 1
(Que estava de pé, no outro canto do palco. Está com os braços cruzados) Logo logo vocês se esquecerão de tudo que foi feito. (Anda em direção ao Rei e Homem 1) Afinal, o sábio morre da mesma forma que o insensato.

 
Rei
E por que eu deveria deixar tudo para o homem que virá depois de mim?

Homem 1
(Olha para Mulher 1) E quem sabe se ele será sábio ou insensato!?

Mulher 1
(Indiferença) De qualquer modo o que virá será o dono de tudo mesmo.

A última fala chama a atenção do Rei. Se nota nele um leve desespero. Ele levanta, cambaleia, e sai.

Homem 1
(Olhando para o Rei. Para Mulher 1) O que resta para esse homem?

Mulher 1
Até a noite ele não vai conseguir descansar.

Homem 1 dirigi-se à mesa onde estava o Rei. Senta, e começa a devorar tudo. Parece-lhe faltar educação. Todos o olham com espanto cochichando entre eles, apontando-o.

 
Mulher 1
Vejam só... Parece então que a verdadeira felicidade do homem está em comer e beber! 

Homem 1 continua a comer, nunca parecendo estar satisfeito, estampa uma felicidade que irrita os outros. 
Entra Homem 2

Homem 2
De fato, quem poderia comer e beber, sem que isso lhe venha de Deus?

Homem 1
(Com a boca cheia de comida e em tom irritadiço) A quem lhe agrade!
Homem 2 calmamente, e começa a olhar para os atores, como se estivesse buscando algo. Pára, olhando para Homem 1, curioso.


Homem 2
Onde está o justo? 

Homem 1
(Sequer vira o rosto para falar-lhe) Cada coisa a seu tempo!

Homem 2 segue buscando com o olhar, dessa vez na platéia. Pára em Homem 1, ri um riso pequeno.
Homem 2
(Rindo) Mais feliz que esse só quem ainda não nasceu!

Luzes vão ficando fracas. De repente, Mulher 1 e Homem 2 vão em direção ao Homem 1, com cara de famintos. Agarram-no e tentam arrancá-lo da mesa. Homem 1 se defende, se debate. Mas todo seu esforço parece inútil.

Luzes de apagam. Segue um som de briga, gritos e coisas sendo quebradas.

Poema tirado de uma entrevista

Anos de provocações
e o poder que é afrodisíaco
[polui]

O mais profundo é a pele
Preparar-se sempre, para o auto-fracasso
e a autofagia..

O poder nos isola
tenha certeza de que você está preparado para o pior

o poder sem abuso perde o encanto

ps: aprender com a idéia.

Poema sin dueño

Realmente te quiero
y por eso te divierto

Sólo hay un corazón sin dueño.

Diversión es amor
amor es pasión
pasión es el odio
y el odio, el amor

Y cuando llegan tantas cosas al corazón...

5 de janeiro de 2008

Estupidez iniciada

Um ser que também é capaz de poder fazer sofrer um mundo inteiro. Vontade de amar pra sempre - mesmo sabendo que esse sempre tem um limite dentro do próprio existir. E daí querer ser tanta coisa pra depois ver que não me reconheci na maior parte delas.
 
A vulgaridade em pessoa feminina. Um ser mal-amado por não ter quem a ame. E se não há quem a ame é porque não fez por merecer. E por que seria merecedora de todas as coisas? De todos os amores... Apenas porque existo, respiro, penso, ajo, como todos os demais? Estupidez... Sim, o mundo sempre foi repleto de estupidez. Sou apenas mais algo que cheira a esse sentimento. 

Também pode ser pena, compreensão... Sim, coisas e estupidez que não quero perder, pois não se sentiriam reais se não existissem em mim.
Adoro os esboços estúpidos e silenciosos, e isso me basta. 

Incompleta como sempre 

O amor é minha auto-suficiência,
e a vida assim, é auto-suficiente.
Amar...
Que verbo!

3 de janeiro de 2008

Diálogo Final

- Então é isso?

- Explico o que vejo apenas uma vez, depois, se tentar explicar de novo, vai sair outra coisa diferente. – disse ela.

- Então você acha que tudo é possível?

Ela riu. Possível era uma palavra muito forte, e não bastava para ela apenas contemplar essa pequena e poderosa junção de letras. Não ousou dizer que não encontrava nas coisas impossíveis alguma possibilidade de existência. Para ela era como se todas as coisas já tivessem sido inventadas.

- Ué, as coisas não poderiam ter saído de um jeito diferente!

Teria então que inventar palavras novas para poder explicar as coisas que ainda germinavam e que, algum dia, explodiriam em milhões de pedaços de sentimentos inéditos. E aí todos diriam: “Veja se você não termina como ela, ela não ama, ela não é amada!”

Indecifrável e poderosa, e nenhuma dessas duas coisas também na maioria das vezes. Ela era feita das partes do mundo que menos entendia. Depois com o silêncio, colocaria sua cabeça no ombro dele, e como se tentasse explicar que se sentia feliz, afundaria seu rosto e o abraçaria com um abraço longo. E ele permaneceria imóvel, tentando explicar-se o que era aquele misto de sentimentos que o tocava quando tinha a presença dela. Não sabia se eram verdadeiramente bons, mas pelo menos não os sentia ruins. E enquanto pudesse agüentar, o seu silêncio serviria de consolo. Sorriu, mas um sorriso que só ele percebera, e quando fez um leve gesto com as mãos à procura de qualquer pedaço de pele dela, seu rosto surgiu do ombro e seus olhos estavam aguardando ansiosamente os dele. Abaixou as mãos, e despertou de seu leve sono que ela o fazia sentir.

- Então... – ele disse.

“Não, meu querido, não vá! Eu sei, sei que te deixo entediada, mas calma, calma, não me entender... O mesmo eu sinto quando estou com você. Como poderíamos então, confiar um no outro? Sim, já nos calamos demais com tanta presença, e ainda não nos entendemos meu bem. E você aí, tão perto de mim, mas ao mesmo tempo tão longe. E depois... e depois? Não mais te tocar, te falar... Será que só depois disso nos entenderíamos? Não sei...”

- Sim.

“Por que você insiste em ser estranha? Por que ao menos uma vez não me conta algo real, tangível. Quero poder te tocar, mas você não deixa. Esse seu sorriso, suas palavras e gestos loucos me fazem te sentir menos ainda. Vai, fala comigo, de verdade, quero te conhecer, saber de você, como você levanta, sua cor favorita, sua comida, seu cheiro... você... é você... Ah, me diga! Como poder te sentir se você se mostra tão longe, tão suficiente, tão real? Não.... não quero mais isso... e falta tão pouco!”

- Vai fazer o que hoje?

“Eu sabia! Por que ele não me fala de verdade? Por que insiste em parecer despreocupado. Ele se mostra tão vivo sem mim, tão íntimo... O que eu vou fazer hoje? Como se isso realmente lhe importasse! Mas eu respondo, vou ter que responder meu bem, senão você pensará que me esforço em parecer louca, e não há nada pior do que um sentimento forçado. Mas então o que estamos fazendo? Por acaso essa conversa não seguiria o mesmo rumo? Por um acaso eu queria que ele pudesse me ler inteira agora, saber exatamente o que estou pensando, para poder nos poupar dessa conversa desinteressada”

- Não sei.

“E você ainda insiste! Vá... se livre dessa presença, pelo menos depois você não precisa de conversas cansativas e estranhas. Mas não, eu preciso saber mais de você! Mas estou com raiva, e não quero te dizer porque você nunca me diz... Vá, diga que quer ir embora, que não me quer mais, porque eu ainda não arrumei coragem.”

- Eu te ligo pra marcarmos alguma coisa, tenho que ir agora.

“Eu sabia, você enjoou. Ou talvez esteja apenas cansado. Mas em qualquer um dos casos, por que não me diz? Seria tão mais suportável... seria... seria... seria suportavelmente triste. Mas eu não me atrevo a forçar o que não consigo ser para agradar-te, não consigo mentir pra mim mesma. E me sinto tão monótona. O que você quer? Eu te quero agora meu bem, sim, quero. Não só a parte e o pedaço, mas todo, e poder por alguns instantes te chamar de meu, como aquelas músicas que já nos são parte, e que esquecemos completamente que não foram feitas por nós; mas elas existem pra nos lembrar de momentos que serão eternos, e agora eu te quero ser eterna. Mas não sei o que fazer. Um gesto louco, que nem eu tenho coragem talvez, ou agir ‘normalmente’ como até agora fui somente através de máscaras. Vai, olhe pra mim, isso, não desvie o olhar... preciso que você saiba o que estou pensando, pelo menos uma parte mínima. Mas você foge, me olha sem olhar, me erra.”

- Tudo bem.

“Não adianta. Ela sente tanta coisa e não consegue me sentir agora. Em que estará pensando, será que desconfia que estou com raiva e que realmente desejo ir embora? Será que sabe que ao mesmo tempo que quero ir bastaria a palavra certa para ficar um pouco mais? Ah, eu não preciso mais disso! Te quero sim, mas não através de falas, nem através de sorrisos. É algo mais que isso, mas não chega a ser completamente importante. Talvez eu devesse parar de pensar em você, porque quanto mais eu faço menos eu te sinto. Vou indo então. Não queria, mas foi você quem escolheu. Talvez o desejo de você volte amanhã ou daqui algumas poucas horas, quem sabe! Mas agora adeus.”

- Então tchau.

( Curto silêncio. Pequeno e ligeiro beijo)

- Tchau.

(Ele se vira e dá de costas)

- Ei!

“Ela me chamou. Você me deu adeus, mas me chamou de volta. Será agora talvez você dirá o que eu queria ouvir? Será que eu não vou mais precisar de tanto silêncio, irritações e esperas quando estou com você? Vai...me diga... te esperarei por agora... mas não demore muito, o sono pode voltar.”

“É agora! Te direi, gritarei bem alto que mais do que te quero. Te adoro e desejo, mesmo que seja apenas nesses loucos segundos. Então você saberá que eu sou mais do que palavras fortes e feitas. Não sou de frases prontas e nem de sentimentos loucos. Te direi e então poderei me sentir normal e íntima a você, mesmo que você não me queira mais. Sim, o que importa é que te direi. E mais do que isso, irei querer vê-lo no dia seguinte, e no próximo, e no próximo, e no próximo... Até que os dias, as horas e nossos segundos acabem. Ou até que você olhe para mim sorrindo – e como eu amo seu sorriso tímido- e diga que enjoou, que não me quer mais. Mas diga, pois eu preciso te ouvir mais do que nunca.”

- Sim?

“Vai, diga qualquer coisa. Qualquer uma daquelas palavras bonitas que só você consegue. Estou aceitando frases prontas, palavras fortes e feitas... o que seja! Eu só quero algumas poucas palavras suas.”

- Me liga mesmo né?

“...”

- Ligo sim... Adeus!

- Adeus!

Ah se eles gritassem... não teriam mais medo, ele fugiria junto com os gritos.

2 de janeiro de 2008

2 de janeiro

O ruim disso tudo é você sempre tentar relembrar exatamente as coisas aconteceram e pô-las no papel. É nessas horas que me dou conta de quanto sou infeliz por tentar viver reavendo minhas lembranças. Pobre do escritor que vive delas, pois a escrita mais dolorosa é a que pode ser realizada enquanto ainda existe dentro da cabeça e do coração do poeta. Em seguida ela morre, como qualquer outra coisa que antes era viva. Viver de lembranças é viver algo que não é mais seu, algo que não é poeta, é, somente, egocentrismo. Mas acho que não seríamos muita coisa sem ele também.